Ir para o conteúdo
OcaContemporânea

24 de maio de 2026

Cidade e conexão: por espaços de encontro humano.

Lendo a reportagem “Em modo detox digital”, da revista *piauí* (edição de abril de 2026), minha atenção se voltou a uma questão principal: manter conversas certas pode nos conduzir a caminhos mais interessantes. Em diversos momentos, a matéria cita amigos conversando sobre formas de solucionar os incômodos do dia a dia.

A matéria apresenta exemplos de atitudes que, a meu ver, são inovadoras. Mas, ao contrário do que geralmente se imagina por inovação, elas não são inovadoras por utilizarem tecnologias avançadas. Em alguns casos, são justamente o oposto. É o que ocorre com os amigos que se reuniram com a ideia de passar um tempo longe das telas e, hoje, são sócios do *Offline Club*, que funciona em um café em Amsterdã. A regra do clube é manter-se afastado da grande tecnologia do século XXI: o celular. E o objetivo é gerar experiências reais e interação humana.

Não há como negar que o novo modelo social da vida digital impacta diretamente a vida real e o ambiente urbano. Nesse contexto, multiplicam-se preocupações relacionadas à saúde mental, à violência, aos conflitos sociais e à delinquência.

Autor do livro *Os olhos da pele: a arquitetura e os sentidos*, Juhani Pallasmaa discorre sobre o desequilíbrio do nosso sistema sensorial como reflexo da falta de humanismo da arquitetura e da cidade contemporânea, que frequentemente negligenciam o corpo e os seus sentidos. Assim, a arquitetura e o urbanismo ocupam um papel essencial no modo como nos percebemos, e como percebemos o mundo.

Na arquitetura, está em alta o que chamamos de “casa com cara de casa”. Brasilidade e latinidade, por exemplo, são termos cada vez mais presentes no imaginário social. E isso não é à toa. Ao passo que vivemos um momento de novas conquistas tecnológicas, de aceleração digital, da sociedade do cansaço e do chamado *brain rot*, estamos também carentes daquilo que é básico, porém inerente ao ser humano: a conexão humana.

O debate urbano segue a mesma linha, acentuando as discussões sobre cidades mais humanizadas, nas quais os automóveis começam a perder espaço para a escala humana no cerne de questões como mobilidade urbana. Os conceitos de “cidades para pessoas” e “cidades de 15 minutos” ganham cada vez mais luz.

O redirecionamento do planejamento urbano a partir da ideia de uma cidade feita para a escala humana busca melhorar a qualidade de vida da população. A cidade que possibilita o encontro humano também promove diversas melhorias sociais: impacta a saúde física e mental, o bem-estar coletivo, a segurança e até mesmo a economia.

Afinal, somos parte de um grande ecossistema gerado e interligado por conexões. Seria, então, a conexão humana aquilo que nos permite viver sãos? Ou seria justamente o que nos lança ao caos?

Quando nos sentimos pertencentes, nosso cérebro libera ocitocina, conhecida como o “hormônio do amor”. Quando algo nos é valioso, ou quando uma experiência nos traz prazer, há a liberação da dopamina, associada ao sistema de recompensa. Em contextos de segurança e vínculo, o cortisol, hormônio ligado ao estresse, tende a reduzir.

O sistema nervoso pode ser regulado pelo contato humano. Relações seguras nos ajudam a estabilizar nosso estado interno. No fim, a conexão humana é uma das forças que mais nos ajuda a regular nossos corpos e mentes.

E a cidade bem planejada nos permite vivenciar essas relações, mesmo em um ambiente urbano altamente plural – o encontro entre iguais, mas absolutamente distintos uns dos outros.

Para Hannah Arendt, essa a pluralidade é a condição da ação humana, e tudo aquilo que adentra o mundo humano por si próprio, ou que é trazido a ele pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. É devido a essa pluralidade que o meio urbano se torna condição para que a vida aconteça.

Para Pallasmaa, a arquitetura expressa e relaciona a condição humana no mundo, estando intrinsecamente envolvida com as questões da nossa existência. Logo, a necessidade de conexão entre o ser e o espaço faz parte da condição humana. É necessária, além de desejada.

Temos a ideia equivocada de que não há planejamento urbano no Brasil, mas não nos faltam dispositivos técnicos e normativos, mas sim o devido direcionamento para a implementação desse planejamento. Contudo, a prática do urbanismo se revela somente se buscamos soluções para readequar nossas cidades às nossas necessidades.

E, se é verdade que o pensamento urbanista acaba por conservar as ambições dos socialistas utópicos, como diz Jean-Paul Lacaze, com certeza não é pela simples vontade de construir um ambiente belo, bem organizado ou sem problemas sociais, mas pela necessidade que temos, como seres humanos, de viver em harmonia com o espaço. Um espaço que deveria ser “condição necessária e suficiente para que a sociedade urbana viva com serenidade e convivialidade”.

O olhar do planejador urbano deve, portanto, atentar-se não somente aos territórios e fluxos, mas em propiciar as condições para que a vida humana aconteça com presença, corpo, vínculo e pertencimento.

Ver o blog

Vamos desenhar
o seu espaço.

Conte o que você quer construir, reformar ou repensar. A conversa começa por onde for mais fácil para você.

Falar no WhatsApp

Escritório
Ed. Executive Center, Loja A, Térreo — Renascença, São Luís (MA)
65075-800
E-mail
[email protected]
Instagram
@oca.contemporanea
Oca Contemporânea — arquitetura, interiores e urbanismo em São Luís (MA) Feito por Vitor © 2026